Deus e a Ciência em Jean Guitton

Guitton logo no início desta obra nos remete ao questionamento sobre a morte, e ver respostas para ela tanto na ciência quanto na religião. Entretanto, por muito tempo as duas tinham referenciais contrários e pouco se entendiam, porém, cada vez mais, estão – graças ao progresso do ser humano – caminhando para uma aliança, já que muito pouco sabemos do que é real. 

No decorrer da obra surge o “problema” do Big Bang, sua existência e como ocorreu, se verdadeiro. Esta gigantesca explosão ocorreu há bilhões de anos expandindo todo o Universo, este que continua em expansão. No início, porém, se tratava de algo do tamanho de uma cabeça de um alfinete, cerca de 10–43 segundos antes da explosão e a uma temperatura fora do limite da compreensão humana com 1032 graus. Dada a explosão, a matéria é uma massa de partículas primitivas que interagem entre si. Tudo é tão intenso que neste pouquíssimo tempo ocorreu mais coisa do que bilhões de anos após.

No tempo 10–32 segundos, a partícula original – chamada “partícula X” – dá origem a flutuações de densidade e irregularidades de todo tipo, que serão os planetas, galáxias, estrelas etc. A 10–11 nascem e distinguem-se os fótons, quarks, glúons e léptons. A 10-5 o Universo continua a se esfriar e dilatar, formando os núcleos de hidrogênio e hélio. Daí Guitton lança a questão Deus, não seria Ele o princípio? O que acontecera antes do tempo 10–43 segundos (este é o “tempo de Plank”, tempo limite de nosso conhecimento)?

As teorias recentes sobre os primórdios do Universo acabam apelando à metafísica. Porém, o que se sabe é do Big Bang que foi um fluxo de energia que se transferiu para o vácuo inicial (vácuo quântico que é a ausência total de matéria e energia, contendo átomos isolados e diversos tipos de radiação), acarretando uma flutuação quântica primordial. Os indícios principais para que ele tenha ocorrido se dá pela idade das estrelas, as mais velhas possuem entre 12 e 15 bilhões de anos, o afastamento contínuo dos objetos galácticos, o que faz com que entendamos que estavam juntos, e finalmente, a existência de radiação pouco intensa, análoga, a de um corpo em temperatura muito baixa, um fóssil que ajuda a pensar os primeiros instantes do Universo. Guitton retoma a questão sobre Deus, que poderia então ser aquele que “movimentou” o Big Bang, e chama então de Deus aquilo que os cientistas chamam de simetria perfeita. 

Voltando agora para o nosso planeta, na Terra em seus primeiros anos havia a lava, que com seus vapores foram formando a atmosfera, a primeira da Terra. O calor, porém, diminui e se forma uma “pasta” que forma o continente, que com a chuva, é invadido pela água se resfriando, formando o oceano. As moléculas primitivas são agitadas, se reúnem, combinam e formam estruturas estáveis, e estes aminoácidos formam a primeira matéria viva. A vida então seria a matéria mais formada, mas de onde viria esta formação? Novas hipóteses vão sendo descobertas e algumas se apóiam no “acaso criador”. A vida é ordenada por um princípio organizador, assim, o caos é um estado que precede a ordem.

As coisas são como sistemas abertos trocando matéria, energia e informação com o meio, variando no tempo. Desta forma, o sistema pode ser destruído pela amplitude das variações, ou chega a uma nova ordem. Os sistemas fechados passam da ordem para a desordem e o Universo está em luta contra a ascensão da desordem. Esta tendência de auto-organização da matéria é que dá as propriedades para a vida.

O Universo é um vasto pensamento, e em cada partícula vive uma onipresença, um sentido que se encontra no seu próprio interior. Tudo não pode ser fruto do acaso, mas sim, seguir uma ordem. O Universo não poderia ter sofrido a menor mudança em sua formação, caso assim fosse, nada do que teríamos estaria como está. Seria então o acaso ou uma causa primeira? Guitton percebe, na verdade, diversos graus de ordem, mas não o acaso. O Universo tende para a consciência, feito para gerar vida, consciência e inteligência. Assim, o Universo demonstra grande precisão, e se não fosse assim não haveria vida, mas um princípio de sincronicidade, baseado numa ordem universal de compreensão, completando a causalidade.

Na concepção de Universo de Newton há objetos sólidos e espaços vazios, mas com a física quântica e os elementos menores, percebe-se que as partículas elementares não se comportam como “sólidas”, mas sim, como entidades abstratas. A pergunta agora se volta em saber o que realmente há além do sólido. Bérgson tem uma visão puramente espiritual da matéria, enquanto Teilhard de Chardin vê uma união entre matéria e espírito.

Adentrando nestas questões, percebemos que há uma quantidade de indivíduos no interior de uma partícula de matéria que vai além daquilo que nossa imaginação visual pode sentir, e na medida em que as pesquisas avançam encontram-se partículas novas, e sempre mais elementares. Para isso há três possibilidades nesta busca: a primeira é que a busca pelo infinitamente pequeno pode ser infinita, a segunda é a de enfim encontrarmos um elemento final, e a terceira – a mais aceita – é que as partículas elementares serão ao mesmo tempo elementares e compostas.

Hoje em dia tem-se nos quarks a matéria elementar, entretanto, não se pode observa-lo senão por sua sombra, ou seja, existe uma realidade material e uma abstrata onde os quarks são mediadores, mas o curioso é que o conhecimento cosmológico está baseado em uma dimensão abstrata. Há três partículas que constituem o Universo inteiro: o elétron, e duas famílias de quark, o U (up) e o D (Down). Porém no cerne da matéria tudo o que se encontra não passa de “fumaça matemática”, e o movimento dos quarks é ordenado. Mas ordenado pelo que?

Para se chegar à realidade precisamos entender o que é, de fato, real. Encontramos então o “campo” (imaterial), que descreve as forças, entre o real e o material há os bósons que fazem a mediação e asseguram as relações entre as partículas de matéria chamada férminons, que finalmente, são os últimos campos da matéria. O que caracteriza um “campo” é a simetria (invariância global de simetria) resultante de uma “simetria primordial”. O real se baseia no abstrato, e a substância do real é o “quase nada”, que é um conjunto de vibrações potenciais onde estão associadas diferentes naturezas. Esta substância não é algo concreto, mas interações. Novamente Guitton entende este “Campo” como o Divino. Pensando a matéria, no cerne do nível do fóton, nossos espíritos humanos e o do divino se encontram.

A física quântica nos fez ver além do nosso costumeiro espaço e tempo determinados, mas a ver o Universo como um todo. Assim, percebemos que o Universo é uma estrutura, ou seja, uma totalidade feita de partes que também possuem sua totalidade. A Terra está ordenada no Sistema Solar, que está ordenado na Via Láctea, que se ordena no Aglomerado local, que se ordena no Superaglomerado Local, que segue ao “Grande Atrator”. Tudo é determinado pelo Universo em seu conjunto, por exemplo, se tiro o lápis do papel, imprimo forças que implicam o Universo todo. O Universo, por sua vez, é um todo e nele não há espaços vazios, mesmo a bilhões de quilômetros entre, por exemplo, duas canetas, estão na mesma totalidade. Desta forma, tudo o que acontece parece ser organizado por uma consciência, e cada ser humano é imagem da totalidade divina.

Concluindo este trabalho, a obra nos ajuda a olhar para aquilo que nos parece desprezível, como uma formiga ou uma “simples” folha, e buscar nelas o ser. Entretanto, qual seria de fato, o destino do Universo e o nosso? Guitton lembra das hipóteses apontadas sobre o resfriamento ou o aquecimento, e o Universo tende para sua própria origem, ou seja, Deus. E para tal há três considerações científicas, sendo a primeira uma questão básica: se o Universo é finito, o que há fora dele?; a segunda é sobre a contingência do Universo e sua busca pela causa que harmoniza as causas. Finalmente a terceira é o princípio antrópico, onde se questiona a precisão do Universo, quem o ordenaria?

 GUITTON,J. Deus e a ciência. 3 ed. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

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