O movimento da Contracultura numa perspectiva histórica sob análise da filosofia de Michel Foucault

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E SUA PRODUÇÃO MUSICAL

Janis Joplin

Devemos ter presente que, segundo François Ewald (1993, p. 9-10), Foucault tem em sua filosofia: Trabalho paciente e minucioso do arqueólogo e do genealogista no qual não se trata de procurar o que, em nós, na nossa natureza, no nosso inconsciente ou mesmo no nosso corpo, haveria de universal, intemporal ou eterno, uma verdade originária, esquecida, oculta e recalcada, que seria preciso libertar e que de vez em quando faria sua irrupção no fragor da história, mas, pelo contrário, de mostrar algo transitório, de singular, de mortal, em cada uma das figuras em que nos reconhecemos. Trabalho crítico no qual Foucault desvela a proveniência, muitas vezes vergonhosa e sempre secular, das nossas certezas, convicções e verdades. Em cada passo de seu trabalho, Foucault desmancha, deste modo, as sujeições que nos produzem e nos constituem; liberta, de cada vez, novos espaços de pensamento, possibilidades novas e traça, em profundidade, a perspectiva de um novo porvir. Mas, coisa notável, esses espaços abertos, Foucault recusa-se em ocupá-los. (…). Não fala em nome de uma verdade de que, em segredo, seria detentor. Foucault não ataca ninguém. Para Foucault todo enunciado em um discurso possui uma relação com os outros em um contexto, ou seja, “não pode se exercer sem a existência de um domínio associado” (FOUCAULT, 1971, p. 120).

As correlações são aqui apresentadas principalmente com os outros movimentos de contracultura. É evidente que o rock, como foi visto, tem suas características próprias que o faz diferente de qualquer outro movimento discursivo, mas está em um contexto que também está sendo abordado, e por isso possui correlações. Com o movimento hippie, a música folk e o beat, limitando-nos à expressão artística manifestada pela música, poderemos ver um pouco melhor a partir da história. Com especial destaque para certos países e para certos grupos sociais, jovem e juventude passaram a ser sinônimo de contestação. Pelo menos inicialmente, é a juventude branca de camadas médias de países como os Estados Unidos ou aqueles da Europa Ocidental que vai se constituir em algo que poderia ser definido como o núcleo básico deste novo espírito de contestação radical da contracultura. E, assim, a oposição filhos/pais, ou melhor, oposição jovem/adulto ganhava, cada vez mais, dimensão nova e radical. Contudo, parece não ter sido tão de repente que tudo isso aconteceu. Efetivamente, de modo mais acentuado a partir da II Grande Guerra, e especialmente nos países ditos desenvolvidos – com destaque para os Estados Unidos -, as condições de vida e a definição da mesma do que fosse o jovem ou a juventude haviam se transformado bastante, e todas estas transformações apontavam no sentido de fazer deste mesmo jovem uma peça importante, de destaque no grande xadrez social. (PEREIRA, 1986, p. 25-26).

EisenhowerEm meados dos anos 50, segundo Arruda (1980, p. 389), as eleições americanas elegeram o republicano Dwight Eisenhower, que se reelegeria em 1956. Durante seu governo houveram as crises da insurreição na Hungria e a questão do Canal de Suez . Devido a sua postura anti-guerra, Eisenhower consegue agradar, mesmo sendo para muitos o seu desempenho interno não sendo muito bom. Mas desagrada com a Guerra do Vietnã. Diversos protestos começaram a ser feitos, principalmente por parte dos jovens, e um novo nome foi lançado para a presidência americana: John Kennedy. Entretanto, Kennedy manteve e ampliou a participação dos americanos na Guerra do Vietnã. Ele foi morto em 1963, e, em seu lugar, seu vice, Lyndon Johnson, que piorou a situação, perdendo definitivamente o pouco da popularidade que tinha. Algumas obras foram feitas, mas o problema racial entre os americanos continuava, e assim foi morto Martin Luther King, em 1968, ele que era líder do movimento negro, e lutava pela paz. Com sua morte houve um descontentamento por parte dos negros que apelaram para a violência com movimentos como os “panteras negras” e o “poder negro” . E é neste contexto histórico, na década de 1940, 50 e nos anos 60, que surgiria o movimento beat, hippie e o crescimento das músicas-protesto. Nesta época, o rock já não era mais um simples ‘som maldito’ que despertava medo da sociedade que a partir dele deveria ser questionada e se estruturar tendo em vista valores mais coerentes e verdadeiros, mas uma parte constitutiva da produção cultural do país, inclusive com parte nos valores sociais.

Os jovens agora tinham possibilidade de se expressar, e queriam seus direitos, sua liberdade, prova disso, assume Stewart (1993, p. 115), foram as diversas manifestações promovidos pela juventude contra a Guerra do Vietnã citada acima. As músicas-protesto, novo estilo de rock´n roll do início dos anos 60, agora eram lideradas por Bob Dylan, que buscava liberdade e igualdade racial ao lado de Martin Luther King. Na metade da década de 1960 então, com a invasão inglesa – Stones e Beatles – o movimento folk-rock crescia principalmente com Bob Dylan, que espalhava as críticas e protestos pelos Estados Unidos.

Assim como os Beatles, as grandes críticas davam-se aos valores de comportamento repressivo da sociedade americana, então, as letras de músicas do folk-rock tratava-se principalmente de um movimento de contracultura, sugerindo uma nova maneira de viver a vida, não mais fundamentada na opressão, discriminação e morte, principalmente pela intolerância nas guerras. Foi então que, principalmente, afirma Stewart (1993, p. 117), em São Francisco vão surgir as comunidades de contracultura, que buscavam uma iluminação que os fizessem pensar além da hipocrisia de que estavam cercados, um mundo de guerras, e esta “luz” encontravam em drogas. Entretanto, estas drogas eram distintas, a intenção era o crescimento pessoal, assim, abominavam o álcool e drogas mais pesadas como a heroína; usavam maconha, cogumelos, LSD, entre outras. Nestas drogas encontravam um meio de produzir uma sensibilidade para olhar o mundo com outros olhos, adotando novos valores existenciais. Os temas das músicas variavam de acordo com as bandas e as necessidades. Haviam os que faziam letras mais voltadas à espiritualidade e ao esoterismo, buscando principalmente nas religiões orientais a fonte para suas poesias; outros criticavam a política pelas guerras, principalmente a do Vietnã; outros ainda mostravam a alienação dos americanos em relação ao conservadorismo que não lhes dava liberdade de expressão. São Francisco foi o principal palco do folk-rock, pois a cidade possuía uma abertura muito grande para novos valores, tudo isso graças à corrida do ouro ocorrida por lá.

Desta forma, o movimento de prostituição, jogos e a abertura para movimentos revolucionários fizeram da cidade uma alternativa importante para os avanços ideológicos. Assim, cresciam os movimentos que discutiam a falta de um conhecimento existencialista – o que foi sendo suprido pelas filosofias orientais – e também a repressão a que o país vinha se conformando desde a Guerra Fria na década de 1950. Contrapondo o conservadorismo, as comunidades adotam uma postura de filosofia sexual, para fugir das tendências conservadoras, e o uso de drogas – leves – para aumentar a consciência sobre o que estava pairando sobre a política americana. Diz Jerry Garcia (apud FRIEDLANDER, 2003, p. 267), “mais importante do que a música era toda a atitude, o fato de se dançar, de haver uma confraternização geral… Nós viemos de um lugar onde não existiam coisas como estas. Era totalmente isolado. E agora (…), há grandes grupos se divertindo juntos”. Dois dos principais grupos de contracultura foram o movimento beat, em menor escala, e, com repercussão no mundo todo e adeptos esporádicos até hoje, o Movimento hippie. Surge então uma geração chamada de geração beat . Esta geração foi alvo de diversos pensadores que, no entanto, não olhavam pelo mesmo prisma, dando uma conotação indefinida do termo. O fato é que não se caracteriza por ser exatamente uma geração já que não se trata de um grande movimento.

HippiesPorém, este grupo influenciaria o futuro movimento hippie e assim, em linhas gerais, todo o rock and roll a partir da segunda metade da década de 1960. O movimento se divide principalmente em dois momentos, o de Nova Iorque – na década de 1940 – e o de São Francisco – na década de 1950. Na década de 1940 então, segue-se na poesia e literatura um estilo novo e diferente dos que estavam em voga, tendo por principais nomes Allen Ginsberg, William Borroughs, Lucien Carr, Gregory Corso, entre outros. Estes vão se fixar em São Francisco, onde vão encontrar outros poetas inconformados com os Estados Unidos que se apresentava na década de 1940 e posteriormente na de 1950, preocupava-se mais com a tecnologia do que com os seres humanos, o que os deixavam indignados.

Em São Francisco, já nos anos 50, estão presentes outros grupos de escritores como Philip Lamantia, Bruce Conner, Wallace Berman, Gary Snyder, entre outros; e é nesta época que o beat se torna um movimento. Na metade da década, em 1955, comenta Jared (1988, p. 114), alguns poetas ainda desconhecidos se juntam para um recital público em um bairro negro e também para o público latino. Jack Kerouac, vindo de Nova Iorque, promove uma distribuição de vinhos gratuitos a partir de uma coleta no local.; esta distribuição tornou-se parte constitutiva do recital. No entanto, nos Estados Unidos, diz Arruda (1980), era época de grande repressão com a guerra fria, o anti-comunismo, assim, muitos livros de poesia da época foram caçados por imoralidade. Nestes recitais os poetas traziam poesias surrealistas, teologias orientais, principalmente a budista, sobre um naturalismo – ecológicos – que ajudaria a construção do pensamento hippie, e uma profunda crítica social em tudo do que se tratava. Desta forma, crescia o movimento poético de São Francisco, com recitais em que se tinha uma liberdade de expressão. Assim, foi se popularizando o movimento de contracultura beat, não com tanta facilidade, muito menos rapidez. Tratava-se de uma linha de pensamento que aos poucos ia sendo perseguida, e muitos poemas foram censurados principalmente pelo conteúdo sexual, com o sexo fora do casamento, e até dentro dele, mas com outros parceiros, como no livro “Naked Lunch” de Williams Burroughs. É exatamente nestes confrontos judiciais que a literatura beat vai ganhando espaço na imprensa.

Foi justamente com este excesso de publicidade em relação aos beats que se criou em San Francisco o que passou a ser visto como o circuito turístico, concentrando-se primordialmente em North Beach, ponto antigo dos beats originais. Passou a aglomerar no local uma horda de gente jovem, a maioria querendo ser ou passando por beats, todos estereotipados com boinas, barbichas e costeletas largas, óculos escuros e tocando bongô enquanto ouvem jazz. O ponto morreu para os autênticos beats, e muitos voltaram para a estrada, alguns indo parar no México, outros na Europa e ao norte da África. (KIDDO, 2004). Começa então, uma busca pelo esteriótipo beat, e poetas como Clellon Holmes buscaria verificar pontos em comum dos autores desta busca intelectiva de valores novos. Holmes vê no beat uma religião, não só uma busca por valores, mas principalmente pela transcendência na natureza espiritual. Kerouac ainda diria que os beats seriam pessoas altamente espiritualizadas, e solitárias.

O movimento hippie surge neste contexto da guerra no Vietnã, a busca pelos novos valores, uso de drogas, e o folk-rock. Foi principalmente situado em São Francisco e em Berkeley, onde, na Califórnia, sempre haviam protestos esquerdistas universitários, buscando a liberdade de expressão, o que gerou um grande movimento cultural e político que crescia cada vez mais na juventude americana, que agora parecia libertar-se do autoritarismo. Enquanto as grandes bandas, principalmente as inglesas como Beatles e Rolling Stones, moravam em grandes mansões, nesta época os artistas faziam da platéia sua família, e os shows deixavam de ser uma simples demonstração, mas havia um ritual envolvendo os músicos e a platéia, que lutavam por um só ideal. Diz Bill Graham (apud FRIEDLANDER, 2003, p. 267): “quando as pessoas saíam para ouvir música, era como se estivessem indo para um templo”. Estes shows traziam uma manifestação de identificação muito grande, um espírito livre e aberto às experiências que a vida trazia, esperava-se a era de aquário , e tudo era vivido em comunidade. Na área musical como tal, todo o tempo de movimento foi marcado pela banda Airplane , eles de fato adotaram uma característica mais rock’roll ao folk-rock. Em seus shows, que algumas vezes passavam de três horas, era uma experiência de mística e protesto, um grupo de pessoas com roupas diferentes, pensando igual e vivendo um momento de extrema associação com o ideal projetado. Era uma nova maneira de olhar o mundo, de tentar ao menos amenizar a postura americana de bombardeios e guerras.

Estes eventos eram divulgados por cartazes feitos à mão por hippies, mais tarde seriam considerados grandes obras de arte pelo uso das cores e linguagem dinâmica e viva. No ano de 1966, conforme Friedlander (2003, p. 274), começam os comerciantes hippies a vender produtos típicos , e também neste ano começa a entrar em vigor a proibição de drogas como o LSD. Torna-se mais popular o grupo Grateful Dead, que lutava pela democracia e uma nova iluminação à luz de LSD, que os músicos acreditavam que aumentava a criatividade. No ano seguinte, Paul McCartney também faria uma crítica a esta proibição, dizendo que o LSD ajudaria na criatividade e que se tornaria mais humano com o uso dela, acreditando assim que com o seu uso a paz reinaria. Entre confusões e intrigas, principalmente políticas, o movimento hippie vai acabando aos poucos pela disseminação do movimento que, ao invés de protesto, era interpretado como puro uso de drogas e sujeira. Devido ao uso de drogas mais pesadas, como a heroína, excessivo, e também por abranger novas e outras classes sociais, tendo em vista que o movimento não surgiu das classes mais baixas, novos jovens deixavam seus estudos – que eram primários, ao contrário dos primeiros que já cursavam as faculdades – e pouco tinham para sobreviver. Assim, no dia “6 de outubro de 1967, uma multidão carregava um caixão em uma passeata pela Haight Street, numa cerimônia simbolizando a morte da cultura hippie” (FRIEDLANDER, 2003, p. 282).

Apesar de entrar em um processo de morte, o movimento deixou nos americanos uma postura altamente politizada, com pequenas e grandes marchas de protestos e diversos aspectos, tais como a busca por uma sociedade mais natural, que respeite a natureza, e também contra a guerra, interna – preconceitos raciais e de dominação por causa do capitalismo – e também externas, abordando o tema da guerra do Vietnã. No entanto, a partir do início da década de 1970, as letras retomam o lado menos político, caindo em uma egolatria, e busca do prazer. Neste período hippie, haviam diversos festivais de música-protesto, gerando novos nomes como o de Janis Joplin,e principalmente Jimi Hendrix. Hendrix, afirma Criston (1990, p. 19), marcou mais pelo seu novo jeito de tocar guitarra, com alavanca e os pedais de wha-wha , do que como um bom músico. Ele foi peça fundamental para o surgimento do posterior heavy metal, com os solos longos e principalmente por colocar um guitarrista como o principal artista nas bandas de rock and roll. Já a texana de Port Arthur, Janis Joplin não aceitava o modo conservador de seus pais, que também não a aceitavam. Janis Joplin foi outro marco histórico, além de interpretar de modo inconfundível, foi a única artista branca da época, do sexo feminino, a cantar música negra, o blues.

Bob DylanBob Dylan é um grande nome e marca principalmente a mudança da maneira de pensar com suas músicas que buscaram a consciência social, afirma Stewart (1993, p. 118), e reflexões mais aprofundadas, fariam então do rock´n roll uma expressão de crítica, um meio fecundo de conscientização. Com grande influência da música folk e do blues, lança um disco chamado Bob Dylan inaugurando a crítica política na música. Até aí a música era vista numa perspectiva principalmente de diversão. Mas diz Dylan (apud PEREIRA, 1986, p. 54) afirma: “minhas canções protestam contra a guerra, contra as bombas e os preconceitos raciais, contra o conformismo”. Com os Rolling Stones esta crítica vai ao extremo: A imagem dos Rolling Stones era de uma rebeldia agressiva, alucinada, até mesmo temível. Homossexualismo, uso de drogas, escândalos, acidentes nos shows, conflitos e choques com autoridades, estes são alguns dos ingredientes de uma imagem que traduzia a fúria radical da contestação de uma parcela da juventude internacional. (PEREIRA, 1986, p. 59). Fatores importantes ainda surgem como a revolução cultural chinesa, que lutavam por um processo de transformação para que sua cultura aderisse às mudanças políticas internacionais, a guerra no Vietnã, inaceitável pela grande maioria dos americanos, gerando passeatas entre os jovens e grande contestação por dúvidas quanto a veracidade dos meios de comunicação americanos, e, por fim, a Guerrilha de Che Guevara na Bolívia, levando a uma grande identificação da juventude com esta personalidade cultuada até nossos dias . No início da década de 1970, foi organizado, diz Pereira (1986), um congresso em Berkeley, na Califórnia, onde se declarava então, que “a nova sociedade, a Sociedade Alternativa, deve emergir do Velho Sistema, como um cogumelo novo brota de um tronco apodrecido” (PEREIRA, 1986, p. 92).

E, continua Pereira (1986, p. 92 – 93): Acabou-se a era do protesto subterrâneo e das demonstrações existenciais. Acabou-se o mito de que os artistas têm que estar à margem de sua época. Devemos de agora em diante investir toda a nossa energia na construção de novas condições. O que for possível utilizar da velha sociedade, nós utilizaremos sem escrúpulos: meios de comunicação, dinheiro, estratégia, know-how e as poucas e boas idéias liberais”.

O QUE É CONTRACULTURA?

 Uma definição direta de Luís Carlos Maciel (apud PEREIRA, 1986, p.68 – 69) diz o seguinte: Consiste em recolher o lixo da cultura estabelecida, o que é, pelo menos, considerado lixo pelos padrões intelectuais vigentes, e curtir este lixo, leva-lo a sério como matéria-prima da criação de uma ova cultura. Misticismo irracionalista, filosofia oriental, astrologia, especulação metafísica, hedonismo primitivista etc., geralmente considerados bobagens infantis pelo melhor pensamento moderno, foram transformados nas principais disciplinas da academia do underground. Assim, para definirmos este movimento, adotaremos a obra O que é contracultura, de Carlos Alberto Messender Pereira. Segundo Pereira (1986), podemos ter alguns momentos principais para caracterizá-la. Vamos explicitar como o autor nos indica meios para compreender a contracultura.

Num primeiro momento: O termo “contracultura” foi inventado pela imprensa norte-americana, nos anos 60, para designar um conjunto de manifestações culturais novas que florescem (…). É um termo adequado para uma das características básicas do fenômeno que é se opor, de diferentes maneiras, à cultura vigente e oficializada pelas principais instituições das sociedades do ocidente. Contracultura é cultura marginal, independente do reconhecimento oficial. (PEREIRA, 1986, p. 13). Também pode-se entender tendo em vista dois aspectos: o do fenômeno histórico concreto dos anos 60, e como uma postura, um modo de ser e agir, como uma crítica atual. É ter em vista que “cultura é um produto histórico, isto é, contingente, mais acidental do que o necessário, uma criação arbitrária da liberdade – cujo modelo supremo é a arte” (PEREIRA, 1986, p. 14). A contracultura depende de um certo etnocentrismo para existir, para ser marginal – contra – deve ser vitima de um preconceito. Porém é insubmissa aos tipos e tentativas de racionalização. Apesar de marginal, ela surge devido ao comportamento da própria sociedade; Pereira (1986) vai chamar de antídoto para uma sociedade doente. É atual. “O doente é o homem condicionado que conhecemos em nossa cultura. Sua perda básica é a da própria liberdade”. (PEREIRA, 1986, p. 17).

“A contracultura surgiu do confronto entre a cultura, reconhecida como doença, e a visão juvenil, cujo instinto natural é para a saúde (…), funda-se num desencanto radical”. (PEREIRA, 1986, p. 18). Não se trata aqui de uma análise histórica profunda ou um tratado sobre contracultura, mas apenas identificar o que de fato é este movimento para entendermos o discurso do rock´n roll e do heavy metal enquanto movimento pertencente a contracultura. Nosso autor aponta para duas realidades principais, sendo a primeira tendo a contracultura como “conjunto de movimentos de rebelião da juventude (…) que marcaram os anos 60: o movimento hippie, a música rock, uma certa movimentação nas universidades, viagens de mochila, drogas, orientalismo e assim por diante”. (PEREIRA, 1986, p. 20).

Assim, é uma data histórica, um conjunto de enunciados que passaram. Por outro lado: O mesmo termo pode também se referir a alguma coisa mais gera, mais abstrata, um certo espírito, um certo modo de contestação, de enfrentamento diante da ordem vigente, de caráter profundamente radical e bastante estranho às formas mais tradicionais de oposição a esta mesma ordem dominante. Um tipo de crítica anárquica – esta parece ser a palavra-chave – que, de certa maneira, “rompe com as regras do jogo” em termos de modo de se fazer uma oposição a uma determinada situação. (PEREIRA, 1986, p. 21 – 22). A ordem era estar fora do sistema: “rompia-se com praticamente todos os hábitos consagrados do pensamento e comportamento da cultura dominante, realizando-se um espécie de “crítica selvagem” a esta mesma cultura e sociedade ocidentais.” (PEREIRA, 1986, p. 22 – 23). A crítica era dos valores, mas toda a estrutura de pensamento era colocada a prova, e, segundo Pereira (1986, p. 23), se criticava até “o predomínio da racionalidade científica, tratando-se de redefinir a realidade através do desenvolvimento de formas sensoriais de percepção”.

É nesta perspectiva que entramos em uma abordagem histórica do rock´n roll e do heavy metal, tendo em vista o movimento de contracultura e a visão discursiva e de saber-poder de Michel Foucault. Assim, ao longo deste próximo capítulo, vamos mapear e concluir a ordem dos enunciados e discursos, suas críticas, seus anseios, e são épocas não muito distantes, mas muito diferentes , as críticas podem até ser para alvos em comum, mas com perspectivas de ação – discurso – e reação, bastante diferentes.

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