Relação de saber e poder em Michel Foucault

Foucault faz uma ligação entre saber e poder e depois entre o poder e saber verdadeiro[1], que se dá nos procedimentos de exclusão. Para ele, segundo Roberto Machado (1988, p. 161), o saber vai além das classificações da positividade. O saber explica a realidade em que se encontra o sujeito, seu contexto, e então as críticas do ser humano à sua realidade. Embora Foucault diz que “a cidadania, na medida em que consistiu na institucionalização das disciplinas, criou a subjetividade à sua imagem e semelhança. A subjetividade é a face individual do processo de normalização e não tem existência fora desse processo” (SANTOS, 2003, p. 246 – 247).  Assim, Foucault apresenta um pessimismo e acredita que o ser humano se manifesta a partir da realidade que o envolve, esta posição o coloca como estruturalista.

  O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder (não é – não obstante um mito, de que seria necessário esclarecer a história e as funções – a recompensa dos espíritos livres, o filho das longas solidões, o privilégio daqueles que souberam se libertar). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem o seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.(FOUCAULT, 1990, p.12).     

 A partir destas colocações percebemos que o pensamento de Foucault toma direções que estão intimamente ligados a sua história de vida[2] e vai se firmando com uma crítica ao comportamento discursivo da sociedade, refletindo-o com seu olhar contemporâneo, na época em que viveu. Ele vai analisar o ser humano e perceber que este está cercado de um controle massificante que faz com que ele não tenha sequer tempo para argumentar o contrário.

 O poder possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma “positividade”. (…) O que lhe interessa basicamente não é expulsar os homens da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e sim gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo, aproveitando suas potencialidades e utilizando um sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas capacidades. Objetivo ao mesmo tempo econômico e político: aumento do efeito de seu trabalho, isto é, tornar os homens força de trabalho dando-lhes uma utilidade econômica máxima; diminuição de sua capacidade de revolta, de resistência, de luta, de insurreição contra as ordens do poder, isto é, tornar os homens dóceis politicamente. (MACHADO,1982, p.193). 

 Com esta análise, Foucault vai entender e mostrar, até ironicamente, como os métodos vão se firmando e os critérios de verdade vão se formando. Todos os discursos são saberes, mas é atribuído a alguns um nível mais elevado de importância a partir do poder de quem discursa, assim, vem os métodos empíricos e suas provas, os métodos racionais e suas filosofias e assim por diante. Neste ponto, Foucault interpreta que não se pode buscar respostas e analisar discursos a não ser a partir da própria contemporaneidade em que se vive; nem pelo passado, nem pelo futuro, mas pelo presente. Não se pode julgar uma realidade não estando nela, o que se pode dizer é entender como ela se impõe na sociedade, mas sem juízo de valor.

Sendo o saber condicionado pelo poder de quem o discursa, Foucault vai tentar ao máximo se afastar da figura do autor e sua autoridade para entender a realidade. Para Foucault, então, não importa o autor que escreveu, mas sim o que de fato ele produziu. Quem escreveu não possui tanta relevância ao longo da história para o saber, mas sim o que foi dito ou escrito. Desta forma, Foucault entende o autor não “como o indivíduo falante que pronunciou ou escreveu um texto, mas o autor como um princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de sua coerência” (FOUCAULT, 1996, p. 26). Sendo assim, o autor é um mero organizador de idéias – enunciados – que provêm de uma realidade onde o mesmo está inserido. Esta tendência de pensamento permitiu alguns comentadores como Battista Mondin (1983, p. 225), a entender Foucault com um “entre os maiores protagonistas da grande revolução cultural e filosófica do último decênio, o estruturalismo”.

De fato, para ele devemos cuidar para que esta exaltação do autor não nos desvie do que de fato importa, o seu pensamento. Assim, podemos filosoficamente situar o seu pensamento a partir de autoridades no pensar filosófico, por exemplo, Kant é uma autoridade pelo valor do que escreve ou o valor de que escreve é dado não pela obra, mas por sua autoridade? Seria natural, supondo que este pensamento estivesse incorreto, que as pessoas se interessassem ou temessem o pensamento de Kant sem ao menos lê-lo? Por isso, Foucault recorre ao enunciado e discurso dos autores e não à autoridade do autor, ou seja, não importa quem escreveu, importa o que está escrito.

Foucault vai aplicar-se ao estudo da história e nela encontra uma descontinuidade que apresenta em sua obra “História da loucura” (1961). A história é um conjunto de discursos desconexos que vão aparecendo à medida em que a ordem social se manifesta. Assim, não existe um discurso imutável, e nesta obra referida anteriormente, ele mostra a maneira como a loucura foi tratada ao longo dos anos. A verdade é construída pelo ser humano em seu contexto histórico, respondendo às suas atividades. Diz Foucault:

 O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder (não é – não obstante um mito, de que seria necessário esclarecer a história e as funções – a recompensa dos espíritos livres, o filho das longas solidões, o privilégio daqueles que souberam se libertar). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem o seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.(FOUCAULT, 1990, p.12).   

 Por isso, percebemos “um progressivo distanciamento das teses epistemológicas – sempre levadas em consideração – que torna possível um novo tipo de história” (MACHADO, 1988, p. 10). Foucault faz uma distinção muito interessante do saber e da ciência, e também do saber da ciência. De fato, entende-se para ele que a ciência é apenas um ramo do saber, uma forma condicionada e que condiciona alguma determinada maneira de pensar. Esta maneira de pensar se encontra em um espaço-tempo que faz com que seja verdadeira ou falsa, de acordo com quem está falando (daí a crítica aos procedimentos de exclusão que veremos a seguir). De qualquer forma, Foucault diz que saberes:

 São aquilo a partir do que se constroem proposições coerentes (ou não), desenvolvem-se descrições mais ou menos exatas, efetuam-se verificações, desdobrando-se teorias. Formam o antecedente do que se revelará e funcionará como um conhecimento ou uma ilusão, uma verdade admitida ou um erro denunciado, uma aquisição definitiva ou um obstáculo superado (FOUCAULT, 1971, p. 220).    

 Sendo assim, não existe no discurso em si, uma maneira mais ou menos verdadeira de ser, visto que sob o ponto de vista de Foucault, mais vale as condições sócio-culturais. Um exemplo tirado de sua obra, onde analisa a botânica do século XIX, ele explica: “Mendel dizia a verdade, mas não estava “no verdadeiro” do discurso biológico de sua época” (FOUCAULT, 1996, p. 35). Com estas palavras, percebemos o quanto o discurso na verdade é enraizado na sociedade. Para Michel Foucault (1971, p. 222), o conhecimento não pode se reduzir à ciência positiva, que se caracteriza pelo método, mas sim por entender os territórios arqueológicos[3] que se pode empregar regras e leis para todas as positividades e todo o saber. As ciências vão se formando na história a partir de discursos que geram comportamentos e cosmovisões, e sempre tendo o saber como o fundamento do pensar discursivo.

Foucault vai dizer que o saber está aliado ao poder. Em uma análise histórica, ele vai percebendo que ao longo dos anos, o ser humano foi efetivamente se formando a partir do poder, ou seja, a medida em que os discursos – entendamos que os discursos não estão necessariamente formados pelas positividades, principalmente pela ciência – iam se formando, o que era considerado verdadeiro, racional, correto, e nunca falso, irracional ou incorreto, eram exatamente os ligados a autoridades políticas e econômicas da época. Também por isso, Foucault vai chamar de episteme “o conjunto das relações que podem unir, em uma época dada, as práticas discursivas que dão lugar a figuras epistemológicas, a ciências, eventualmente a sistemas formalizados” (FOUCAULT, 1975, p. 232).


[1] O verdadeiro, como veremos neste tópico, é colocado em dúvida dada a contingência dos saberes vigentes que sôo são assim atribuídos por causa de sua relação de poder (saber-poder).

[2] Segundo ERIBON (1989), Foucault era homossexual (p. 294 – 295) e solitário (p. 28), e, também por isso, considerado louco, por isso a discussão e tantas obras sobre loucura, punição e sexualidade.

[3] Estes territórios arqueológicos são as fontes das pesquisas históricas de Foucault. Nele se retrata as buscas pelos arquivos que são os discursos em uma época passada.

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